O erótico e o perturbador através do feminino
"Quando dormiam juntas, entrelaçavam as pernas e juntavam o nariz e, no meio da escuridão, Annelise lhe pedia ternamente que a estrangulasse. [...] Então Fernanda abraçava seu pescoço com as mãos suaves-como-a-seda, suaves-como-o-algodão, e apertava um pouco, e um pouco mais, e depois soltava e massageava com seus polegares lisos, com seus polegares lisinhos, a cartilagem que brotava como uma maçã de Eva sob seus dedos enquanto Anne entreabria os lábios." cap. X, p. 104-105.
Ano passado, fiz uma leitura que mudou a química do meu cérebro. Vou ser honesta: ela foi tirada de uma dessas listas de femcel, que, a esse ponto, geralmente além de bregas também são repletas de nada - apesar de que há exceções, e Mandíbula, romance escrito por Monica Ojeda, é uma delas.
Monica Ojeda é uma escritora equatoriana, nascida em 1988 na cidade de Guaiaquil. Já publicou livros de contos, poemas e dois outros romances para além de Mandíbula: La Desfiguración Silva e Nefando. Pessoalmente, eu ainda não li suas outras obras, mas tenho interesse! Mandíbula foi publicado em Janeiro de 2018 e, de acordo com a autora, ela retrata "o medo em suas diferentes formas".
"Tudo que escrevo se resume a duas ou três palavras.
Mãe Filha Irmã
É uma trilogia não prevista pela Psicanálise."
- Victoria Guerrero
A narrativa já se introduz com os dois pés na porta, apresentando o leitor imediatamente ao clímax do livro: o sequestro de Fernanda por sua professora de Língua Portuguesa. Os capítulos não seguem ordem cronológica e não são todos narrados pela mesma voz. Existem três principais pontos de vista no decorrer da história: o de Fernanda, a aluna sequestrada; o de Annelise, melhor amiga de Fernanda; e o de Miss Clara, professora das duas. O início é um pouco confuso, mas logo o cenário se constrói na mente de quem tem paciência para dar o tempo que ele demanda. E vale muito, muito a pena. Esse livro retrata o feminino na sua forma mais nua e crua. O luto da filha ao perder a mãe, a experiência universal de ser apaixonada pela sua melhor amiga, a hierarquia das amizades quando se é adolescente, a forma como o feminino é capaz de ser grotesco, violento, erótico... tem de tudo e mais um pouco, é um baita banquete literário! O sentimento de nostalgia que senti nas poucas semanas que levei para terminar a obra foi deliciosamente intenso. Eu saboreei cada capítulo com a mesma fome, a mesma curiosidade.
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Fotografia p&b de Monica Ojeda |
Nossa personagem principal, Fernanda, é uma jovem com idade suficiente para estar no ensino médio. Estuda no Colégio Bilíngue Delta, High-School-for-Girls (escola de elite em Guayaquil de doutrina católica ultraconservadora), que contava com uma agenda especial para eventos espirituais - aos quais as alunas e os professores eram obrigados a comparecer. "Você tem que entender que isso é um colégio, sim, mas também é uma empresa. Há meninas que vêm de famílias importantes." cap. VII, p. 90. Não é novidade para ninguém que, uma instiuição particular, religiosa e apenas para meninas é a fórmula perfeita para os acontecimentos mais inimagináveis; a rebeldia adolescente é capaz de muito, por não ter noção de que as consequências não desaparecem com o tempo. Enfim, Fernanda tem uma melhor amiga, sua irmã cobra, sua siamesa unida pelo quadril: Annelise. E atende consultas com seu psicanalista, dr. Aguilar, com quem se consultava desde criança por ter matado seu irmão, Martín, de 1 ano, quando ela tinha 5 anos.
Annelise não era sua única amiga. Fiorella, Natalia, Ximena e Analía também são presentes nos cenários apresentados, todas como um grupo: "o grupo mais perfeito da sala", elas pensavam. Elas não tinham colegas do sexo masculino; mas, por vezes, as mais populares - a dupla inseparável F&A - eram convidadas para festas universitárias. Às vezes elas iam. Às vezes, todas elas iam. Porém, todas elas passavam a maior parte do tempo juntas num prédio abandonado que faziam de abrigo para suas brincadeiras e desafios. "Era um prédio abandonado de três andares, uma estrutura acinzentada com escadas irregulares, arcos semicirculares e fundações à vista que, segundo lhes dissera o pai de Fernanda, agora pertencia a um banco que ainda não se decidira se ia terminá-lo ou demoli-lo. Todas elas se sentiram atraídas pelo ar de ruína que flutuava na construção nua." cap. II, p. 22-23.
Miss Clara, a professora de Língua Portuguesa e Literatura das meninas, perdeu sua mãe cinco anos antes de quando a história se passa. Clara lida com o luto assumindo a profissão de sua mãe, além de a forma de se vestir e falar exatamente como ela. Esse não foi o único evento traumático na vida da professora, como é rapidamente apresentado ao leitor. Anos atrás, ela havia sido mantida cativa dentro de sua própria casa por duas de suas alunas, as M&M, de catorze anos de idade cada. "Clara achava difícil escapar de um 'E como você se sente depois do que aconteceu com Aquelas Duas?', [...] pois a elaboração narrativa das treze horas e cinquenta e sete minutos em que foi amarrada à poltrona com estampa de tigre da mãe – com suas alunas passeando pela casa, comendo sua comida, brincando com suas coisas e, acima de tudo, zombando de seu medo – era muito complexa até mesmo para ela." cap. III, p. 47. Ela acabou desenvolvendo um transtorno de ansiedade após o episódio, além de um medo imenso da mente jovem e suas imprevisibilidades.
Eu acredito ser universal a experiência de não saber se você quer ter sua melhor amiga ou ser sua melhor amiga; se seu ciúmes por ela é motivado por amizade ou romance. "Fernanda a observou de longe e pensou que lindo era aquele seu cabelo de pantera. [...] Fernanda pensou, também, no quanto ela gostaria de ser Annelise. [...] Não como Annelise, mas Annelise. [...] Levantar-se todas as manhãs e ver as sardas das maçãs do rosto no espelho respingado de pasta de dente, falar com uma voz selvagem, ter um irmão mais novo para amar." cap. VI, p. 75. A dinâmica entre as personagens não é diferente. A forma como a intimidade, o amor proibido, a provocação entre duas melhores amigas é perturbadoramente fidedigna. "Fernanda e Annelise – as inseparáveis, as irmãs de mente suja; sempre destemidas e dispostas a inventar aventuras para não se aborrecer." cap. II, p. 24-25. Fernanda, que acredita ter assassinado seu irmão quando criança. Annelise, que é obcecada pelo horror, admirada pelo sombrio trauma da amiga. As duas com mães ricas e conservadoras, que se não estão ignorando-as, estão criticando-as."Não, I mean, eu amo minha mãe. Eu a amo muuuuito. E acho que ela me ama às vezes, embora isso seja quase nunca. Mas se minha mãe fosse a da Annelise, por exemplo, eu não a amaria. I mean, aquela mulher fica o dia inteiro enfiada em casa, mas ignora a Anne. E quando presta atenção nela, é sempre pra criticá-la por coisas que não fazem sentido. Ela lhe diz que é estúpida, mas a Anne não é estúpida: ela é muuuito esperta. E às vezes bate nela. Minha mãe não me bate. Se eu comparar as duas, minha mãe é melhor, I guess." cap. IX, p. 98. Elas encontravam uma na outra identificação, conforto, amor, parceria: acreditavam ser donas do mundo quando juntas. Esse é o efeito inebriante das relações femininas.
Uma vez que comecei a leitura, não consegui parar. Devorei os capítulos um por um, ficava até feliz quando o ônibus demorava um pouco para eu poder ler mais. Foi uma experiência muito boa, aquece meu coração quando um livro faz isso comigo. Mesmo a obra sendo perturbadora, eu ouso dizer que ela conforta através da identificação - como nós, gen Z, costumamos dizer: é "relatable". A trama é repleta de perguntas a serem respondidas, figuras de imagem que estimulam a imaginação, recomendações de CreepyPastas e muito, muito mais. Aos que chegaram até aqui, não deixem de adicionar essa leitura à lista de vocês! Não é difícil encontrar o pdf na internet, em sites como o Anna's Archive ou grupos no Telegram. Apesar de ser muito mais satisfatório ter o livro físico ao invés do digital, o acesso à literatura está cada vez mais caro (viva a pirataria!). * Nesse link, é possível verificar qual domínio do Anna's Archive está no ar.




Você bem sabe que eu ainda estou com este livro a ler por recomendação sua, e então por penso nele como quem não conhece nada. Até porque pouco, pouco pude entender até hoje desse centro temático da obra; e você faz comentários ousados! Eu teria dificuldade de utilizar essa linguagem universalizante que você usa pra determinar algumas relações. Mas é ainda um comentário precoce! Estou teleologicamente agrilhoado ao seu kindle :) Obrigado pelo texto, adorei!
ResponderExcluirVocê tem que ler para podermos conversar sobre a história, tá enrolando demais... ;)
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