Eu andei negligenciando meu sagrado mundinho virtual, e sinto muito por isso. Estive trabalhando num panfleto para os jogadores da minha campanha de RPG e procurando emprego nessa desgraça capitalista que a vida se tornou.
Tenho várias ideias para posts novos, mas está sendo difícil ter a criatividade necessária para redigi-los nessa bagunça toda. Por enquanto, vou deixar vocês com esse texto interessante sobre o cinismo de hoje, redigido por Yannick Yoran, para um trabalho da faculdade. Espero que vocês se divirtam e reflitam com essa leitura!
Cinismo hoje
Quem afrontavam Antístenes e Diógenes? Quando este último masturbava-se em público, não era a Ágora que afrontava, e nela os senhores da pólis, das colônias e dos escravos? Qual é a Ágora hoje para o cínico, e quem a frequenta para que se afronte? Será que, consideradas as transformações socio-territoriais entre o (admitidamente longo demais para ser homogêneo) período de "atividade" prática-teórica dos cínicos antigos, na sociedade do escravagismo antigo, e o período de existência dos seus contrapartidários modernos (pois não é certo que podemos chamar as manifestações deste novo fenômeno de "atividade", e muito menos determiná-la como "prática teórica"), já na era do capital, nos resultará solidamente qualquer noção de continuidade entre o cínico de ontem e o de hoje, ou é a nossa associação das duas "filosofias" feita como um falso encaixe etimológico, obrigando o novo cínico mundial a herdar sem legitimidade o legado do Sinopense?
Na tentativa de levar o assunto adiante, cheguei matutando à conclusão de que dois fatores centrais caracterizam bem, digo, são determinações fundamentais encontradas bem assentadas sobre o modo cínico antigo e também sobre o modo moderno e contemporâneo; digo que estas determinações são o individualismo e alguma forma de esclarecimento; ora, como pode o catáscopo do povo unir-se em sua missão a todo corpo dos hoplitas, tentando infiltrar com esta excessiva unidade de armas tão furtivamente como um elefante a vanguarda inimiga? Se originalmente a posição do cínico era a do batedor, levemos em conta que não há condições para um exército de batedores; estes trabalham, por essência, sozinhos ou em bandos mínimos. O destacamento do catáscopo é justamente aquilo que lhe diferencia, assim como é a sua posição resultante, daquele que acessa informação a qual nem todos têm acesso. Estes fatores, decerto abstratos, vejo nos modos antigo e novo de cínicos.
Muitas das minhas posições me levam a crer que uma ocorrência determinante na cisma que observamos entre períodos passados da nossa história e o presente momento é a mencionada desarticulação socio-territorial. Do trem aos reels, o mundo faz ouvir de cada canto todo choro, mas eu mesmo nunca tive a oportunidade de encontrar o Romeu Zema na Praça do México, subindo o morro da Rua Itapeva (nem em qualquer outra praça do estado!), e tem gente que mora a 800 quilômetros desta cidade mas espera convivência comigo. Então como conceber possibilidade de permanecer ainda o impacto essencialmente local, absolutamente concreto, do cínico antigo, se a nova Ágora é fundada pelas abstrações por eles combatidas? No concreto, os sujeitos irônicos e que moram com os cães hoje em dia não são aqueles que chamamos de cínicos.
Então podemos entender o cínico hoje como um crescido do cínico antigo, não destituído de suas armas, mas tendo encontrado em sua rota de batedor um dragão cujas escamas o aço de sua lança não pode penetrar? Se é assim, penso que a perda da antiga força faz do novo cínico vítima de uma mudança qualitativa. Vítima, pois é mudança certamente enfraquecedora.
E o que é este cínico enfraquecido? Proponho determinações do cínico hoje: desdém pelo nomos, pela normativa ideológica maior, pela presunção do iluminismo, pela crença na institucionalidade burguesa na mais alta e falsa de suas aspirações democráticas; ele entende, por exemplo, que a lei, a constituição, o voto consciente e afins não garantem e nem mesmo têm como propósito uma vida de virtude para a nação. As normas sociais não servem ao sujeito. Alternativa possível (se bem que tudo é possível na América!) é a alternativa da vida frugal, alinhada ao catáscopo que se arrisca pela humanidade, e a ela a força do capital hoje impõe limites intransponíveis (concordemos que estes limites estavam também tão presentes na idade antiga que o cinismo passou o resto da história como uma das tradições filosóficas menores, mas teve potência diminuída ainda mais em função da desarticulação socioterritorial citada anteriormente), impedindo a saída já difícil do cínico antigo. Outra possibilidade é a organização contra o nomos, mas se o cínico antigo já se punha como individualista, não é de surpreender que no "fim da história" decretado por Fukuyama, cínicos e não cínicos sejam lançados ao individualismo; e se o neoliberalismo impõe ideologicamente o reino do sujeito, o impõe também dificultando as vias coletivas de existência na sociedade contemporânea, ao menos como vejo hoje no Brasil. A via da organização contra o Capital é necessariamente coletiva, e esta via recebe também o desprezo do cínico. Agora este está contra a parede e deve largar o individualismo (organizar-se contra o Capital ou mesmo organizar-se paralelamente ao Estado/Capital), largando assim a possibilidade do cinismo, ou largar o fator determinante esclarecimento, e perder este desdém característico, identificado também na ironia metódica do cínico velho. Aí o sujeito é máquina e vive o aqui e o agora conforme a norma e o nomos da sociedade proletarizada. Se não larga um ou outro, seu indivualismo de mãos dadas ao falso esclarecimento só podem levar a uma noção de amoralidade, de hedonismo pessoal dentro do possível, em tudo que é setor social. Aí então cabe ao burguês ser cínico quando lhe vale destruir uma comunidade com um projeto de mineração, e ao político vale ser cínico na sua estribeira; ao pastor que toma postura similar à daqueles (e o clero é burguesificado na sociedade do capital como o cínico também é e tudo mais, afinal é a mercadorização de tudo mais o recorrentíssimo dos fatos de hoje) e até mesmo ao cristão fiel! que desiste de esperar até a morte pelo reino dos céus, sem necessariamente ter deixado de querer algo a mais (e não posso tirar dele a razão), e este mais ele busca na transação comercial com o templo; ou mesmo ao operário que por certo sabe não "ter vida poeta" e assim garantirá seu pequeno conforto a partir de vitórias menores sobre a família e o bairro (e equivalentes). Veja que não pretendo equiparar circunstâncias do cínico burguês-clerical às do cínico comum, pois há determinações também para tal efeito de alastramento, e estas não estão postas sobre todas as classes sociais, como se legitimando discurso tão ridículo quanto aquele de que o escravo moderno permite a própria escravização; mas é certo que a lógica do desprezo generalizado se apoderou sim de diversas das nossas camadas, no Brasil e em todo o mundo. Este sujeito cínico de hoje, dada a possibilidade, desarticula qualquer noção ética, que lhe é desprezível, em nome da defesa do domínio da prática da individualidade de seus senhores (ou de si próprio, em menor parte dos casos) e da manutenção da integridade permanente de seu falso esclarecimento, leia-se, das bases racionais de seu desprezo generalizado.
Se o cínico antigo era contrário ao nomos da pólis, há de se dizer que não era contrário a todo e qualquer nomos, apesar de ser discutível o meu uso do termo aqui. Há um forte preceito da virtude presento no cinismo de Antístenes; não há no novo cinismo. No novo cinismo, a regra é a ciência da podridão, a certeza da podridão do nomos de tudo e de qualquer conjunto, organização, seja daquela do membro do parlamento ou do clero e de seus empregadores, seja do membro médio proletarizado da sociedade civil, e não há espaço para a virtude, apenas para a percepação da total invirtude, em todo caso e canto. O cínico hoje vê a ação ética de um outro sujeito e ao seu redor enxerga emanar uma aura puramente ilusória de segundas intenções e malícia, postas ali apenas como projeção do que não se concebe em posição de franqueza. E se o cínico antigo não era contra todo nomos, não era então contra o nomos que é falso, contra a falsidade? Como é importante a sinceridade, a franqueza ao cínico antigo. E o cínico antigo era amigo do asceta, e do filósofo da razão. O cínico hoje toma de Diógenes a "razão" e vê nela segurança para cuspir na doutrina da virtude do cão. O cínico hoje entende que é impossível acordo que não seja falsidade; e os novos mecanismos do Capital tornam o cínico antigo autêntico incapaz de comunicar sua potência, quero dizer, fazem dele um "catáscopo só de ida", que não tem como fisicamente retornar com suas noções avançadas; funcionalmente, é um batedor enviado para a morte, um cidadão para o exílio, um ermitão no ermitério ou um pobre lançado à cela. Frente à impotência, o cínico que se adapta se contenta com as próprias visões da falsidade nas aparências, mas é impelido a integrar a lógica social. O desdém é a regra e talvez daí venha o sorriso de canto que pulula em cada esquina daqui.
Checklist pra revisão deste texto: reescrever pela clareza (não mudar o conteúdo demais), adicionar uma seção em defesa do iluminismo e atualizar as referências de ressentimento (retirar a que aparece no texto e adicionar crítica à universidade junto ao clero e a burguesia; 'parábola da professora')
ResponderExcluir:D ! Primeiro temos que fazer para depois aperfeiçoar, e este já foi um bom trabalho feito!
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